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Fabio Morus
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Crise Funcional vs Epilepsia: Diferenças Essenciais Explicadas

10 min de leitura
Cérebro mostrando crise funcional versus epilepsia
Fabio Morus
Fabio Morus

Hipnoterapeuta Clínico

Uma crise na sua frente parece emergência, e o primeiro pensamento costuma ser epilepsia. Mas muitas pessoas encaminhadas a serviços especializados em epilepsia acabam recebendo o diagnóstico de crise funcional, no lugar da epilepsia ou junto com ela. Distinguir as duas muda o tratamento por completo.

Este guia explica o que é cada condição, como os especialistas fazem a distinção, por que o diagnóstico costuma levar anos e como é o tratamento depois que o quadro fica claro.

Pontos principais

  • Crises funcionais (dissociativas) são reais e involuntárias. São causadas por um problema no funcionamento do cérebro, sem descargas elétricas anormais (neurosymptoms.org, em inglês).
  • O diagnóstico mais seguro vem do registro de uma crise típica no vídeo-EEG (LaFrance et al., 2013).
  • As duas condições podem coexistir: cerca de 22% das pessoas com crises funcionais também têm epilepsia (Kutlubaev et al., 2018).
  • Anticonvulsivantes não tratam crises funcionais. O tratamento busca devolver o controle, principalmente por meio de terapia psicológica.

Nesta página

O que é a crise funcional

Imagem do cérebro mostrando padrões de atividade numa crise funcional

Crises funcionais são episódios de tremor, rigidez, queda ou perda de consciência que se parecem com crises epilépticas, mas têm outro mecanismo. Elas já tiveram muitos nomes: crises dissociativas, crises não epilépticas psicogênicas (CNEP) e, antigamente, pseudocrises, termo que hoje se evita. “Crise funcional” é o nome que a maioria dos neurologistas usa agora, e ela é uma das formas mais comuns do transtorno neurológico funcional (TNF).

O neurosymptoms.org, escrito por neurologistas especializados em TNF, explica que a crise funcional não vem de atividade elétrica anormal e acontece por um processo chamado dissociação: o cérebro se desliga em parte do que está acontecendo, muitas vezes em resposta a uma onda de alarme físico que a pessoa nem sempre sente como medo (neurosymptoms.org, em inglês). As crises não são fingidas e não estão sob controle voluntário.

Estresse e trauma são fatores de risco para algumas pessoas, não para todas. Muita gente com crises funcionais não consegue apontar um gatilho, e isso não torna o diagnóstico errado.

O que é a epilepsia

Neurônios disparando durante uma crise epiléptica

A epilepsia é uma tendência a crises recorrentes e não provocadas, causadas por descargas súbitas de atividade elétrica anormal no cérebro. As causas incluem fatores genéticos, lesão cerebral, AVC, infecção e alterações estruturais, e em muitas pessoas nenhuma causa é encontrada. Um EEG registrado durante a crise mostra a atividade anormal, e os anticonvulsivantes controlam as crises na maioria das pessoas com epilepsia.

Como as duas diferem

Quadro comparando crise funcional e epilepsia

Nenhum sinal isolado resolve a questão, e só um especialista deve pesar esses sinais. Estes são os aspectos que os neurologistas costumam observar:

AspectoMais típico da crise funcionalMais típico da crise epiléptica
Atividade elétrica no EEG durante a criseAusentePresente
Olhos durante a criseMuitas vezes fechados, às vezes resistem a abrirGeralmente abertos
DuraçãoMuitas vezes longa, às vezes vários minutosGeralmente um a dois minutos
EvoluçãoMovimentos podem parar, recomeçar e mudarGeralmente um padrão fixo
Falta de respostaPode ser prolongada, às vezes sem movimentoGeralmente curta, seguida de confusão
Resposta a anticonvulsivantesNenhumaGeralmente boa

O fechamento dos olhos durante a crise é um dos sinais mais estudados: num estudo com vídeo-EEG, olhos fechados durante o episódio foram um indicador confiável de crise funcional (Chung et al., 2006). O neurosymptoms.org acrescenta a duração longa e a falta de resposta prolongada, e lembra que exames de imagem do cérebro não ajudam no diagnóstico das crises dissociativas (neurosymptoms.org, em inglês).

Como o diagnóstico é feito

Uma força-tarefa da Liga Internacional contra a Epilepsia (ILAE) definiu quatro níveis de certeza diagnóstica (LaFrance et al., 2013). O mais alto, “documentado”, exige uma crise típica registrada no vídeo-EEG sem atividade epiléptica imediatamente antes, durante ou depois dela. Os níveis abaixo se apoiam na história clínica, no relato de quem viu, na observação de uma crise por um profissional ou num vídeo sem EEG.

Na prática, um bom vídeo caseiro ajuda muito. Segundo o neurosymptoms.org, especialistas que analisam vídeos das crises acertam em cerca de nove de cada dez casos. Se alguém próximo tem crises, peça, quando for seguro, que grave uma do começo ao fim.

Por que o diagnóstico demora

Num estudo de um centro de epilepsia na Alemanha, pessoas com crises funcionais receberam o diagnóstico, em média, 7,2 anos depois do início das crises (Reuber et al., 2002). A demora foi maior em pacientes mais jovens, quando o EEG entre as crises mostrava alterações epileptiformes e quando a pessoa já tomava anticonvulsivantes.

Os motivos são compreensíveis. As crises raramente acontecem na frente de um médico, as equipes de emergência precisam tratar uma convulsão como epilepsia até prova em contrário, e o EEG de rotina entre as crises pode ser normal também na epilepsia. Enquanto isso, a pessoa pode passar anos tomando remédios que não ajudam, com efeitos colaterais e restrições para dirigir e trabalhar.

Quando a pessoa tem as duas

Ter as duas condições não é raro. Uma meta-análise de 2018 encontrou que cerca de 22% das pessoas com crises funcionais também tinham epilepsia, e cerca de 12% das pessoas com epilepsia também tinham crises funcionais, com grande variação entre os estudos (Kutlubaev et al., 2018).

Por isso o diagnóstico de crise funcional nunca deve levar alguém a suspender um anticonvulsivante por conta própria. Também por isso vale a pena que a pessoa e a família aprendam a descrever os dois tipos de crise separadamente. Cabe ao neurologista decidir o que se trata com remédio e o que se trata de outras formas.

Tratamento

Na crise funcional

Conexão entre mente e corpo nas crises funcionais

O tratamento começa por entender o diagnóstico. O neurosymptoms.org descreve o objetivo como encontrar estratégias para retomar o controle durante a fase de aviso, que pode incluir coração acelerado, falta de ar, dormência, tontura ou sensação de irrealidade. As estratégias incluem questionar pensamentos catastróficos sobre a crise, distração e ancoragem sensorial (neurosymptoms.org, em inglês). Os sinais de progresso são uma fase de aviso mais longa, menos crises ou ficar consciente durante uma delas.

A terapia psicológica, geralmente baseada em TCC, é o tratamento principal. O maior ensaio clínico, o CODES, verificou que acrescentar TCC ao cuidado médico especializado não reduziu a frequência das crises mais do que o cuidado médico sozinho aos 12 meses, embora vários desfechos secundários tenham favorecido a TCC e a frequência das crises tenha sido menor aos 6 meses (Goldstein et al., 2020). A fisioterapia ajuda quando também há sintomas motores funcionais, e ansiedade, depressão ou sintomas de trauma precisam de tratamento próprio.

A hipnoterapia pode ser uma ferramenta complementar, principalmente para ensaiar uma resposta mais calma à fase de aviso. A evidência e seus limites estão em hipnose para transtorno conversivo.

Na epilepsia

Os anticonvulsivantes são o tratamento de primeira linha e controlam as crises na maioria das pessoas. Outras opções incluem cirurgia em algumas epilepsias focais, estimulação do nervo vago e, sobretudo em crianças, a dieta cetogênica. Essas decisões cabem a um especialista em epilepsia.

Primeiros socorros em qualquer crise

Nem sempre você vai saber que tipo de crise está vendo, então comece pelos mesmos primeiros socorros seguros. A Epilepsy Action, entidade britânica, orienta (Epilepsy Action, em inglês):

  • proteger a pessoa de ferimentos, afastando objetos perigosos, e amparar a cabeça
  • cronometrar quanto tempo dura a crise
  • não segurar a pessoa nem colocar nada na boca dela
  • quando os abalos pararem, colocá-la com cuidado na posição lateral de segurança e ficar junto até que se recupere por completo

Chame o SAMU (192) se for a primeira crise, se durar mais de cinco minutos, se uma crise vier logo depois da outra sem recuperação entre elas, se houver ferimento grave ou dificuldade para respirar depois. Se a pessoa já tem diagnóstico de crise funcional e um plano de cuidado combinado, siga esse plano, que muitas vezes evita remédios de emergência desnecessários. Uma voz calma ajuda: o neurosymptoms.org lembra que parte da pessoa costuma estar consciente durante a crise.

Quedas durante crises funcionais também podem se parecer com os ataques de queda funcionais, que têm um guia próprio.

Perguntas frequentes

A crise funcional pode virar epilepsia?

Não. São mecanismos diferentes, e ter crises funcionais não causa epilepsia. Uma pessoa pode ter as duas, porém: numa meta-análise de 2018, cerca de 22% das pessoas com crises funcionais também tinham epilepsia.

Como o diagnóstico é confirmado?

A forma mais segura é o vídeo-EEG: registrar uma crise típica em vídeo enquanto o EEG não mostra atividade epiléptica antes, durante ou depois dela. Quando isso não é possível, um especialista que analisa um bom vídeo caseiro junto com a história clínica pode chegar a um diagnóstico provável ou clinicamente estabelecido.

Remédio anticonvulsivante ajuda na crise funcional?

Não. O anticonvulsivante trata atividade epiléptica, que não é o que provoca a crise funcional. Se você tem as duas condições, é o neurologista quem decide quais remédios manter. Nunca suspenda um anticonvulsivante por conta própria.

A crise funcional é perigosa?

Ela não vem de lesão no cérebro, e mesmo assim traz riscos. A pessoa pode se machucar ao cair, e as crises costumam afetar trabalho, direção, estudo e confiança. Receber tratamento de emergência repetido como se fosse epilepsia também pode fazer mal, e esse é um dos motivos pelos quais o diagnóstico correto importa.

A hipnoterapia ajuda nas crises funcionais?

Pode ser uma ferramenta complementar, principalmente para reconhecer a fase de aviso e treinar uma resposta mais calma a ela. A terapia psicológica é o tratamento principal, e qualquer plano deve ser combinado com o seu neurologista.

Conclusão

Crise funcional e epilepsia podem parecer iguais vistas de fora e mesmo assim pedir abordagens opostas. Os passos mais úteis são uma avaliação especializada, um vídeo de uma crise típica e um plano claro do que fazer durante uma delas. Para quem vive com crises funcionais, a recuperação muitas vezes passa por aprender a perceber a fase de aviso e ampliá-la, com apoio de quem entende a condição.

Se você já tem o diagnóstico e quer ajuda com a fase de aviso ou com a ansiedade em torno das crises, entre em contato para conversarmos sobre se a hipnoterapia cabe ao lado do seu acompanhamento atual.

Sobre o autor

Fabio Morus é terapeuta comportamental e hipnoterapeuta em Jersey, Ilhas do Canal, com foco em ansiedade, fobias, sono e trauma. É formado em Hipnoterapia Neuro-Sistêmica, TCC (Instituto Beck) e EMDR (EMDR Association UK). Atende online em português e inglês, e presencialmente em Jersey.

Este texto é informativo e não substitui avaliação de um neurologista ou de outro profissional de saúde qualificado. Em emergência, ligue para o SAMU (192). Se estiver em sofrimento intenso, ligue para o CVV: 188 (Brasil, disponível 24h).

Referências citadas

Este conteúdo é de carácter informativo e não substitui diagnóstico clínico profissional ou tratamento médico. Consulte um profissional de saúde qualificado antes de tomar qualquer decisão com base nesta informação.
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