Quem faz essa pergunta quase nunca está perguntando por si. Está perguntando por um parceiro, uma mãe, um chefe, e por baixo dela há outra pergunta, mais concreta: isso vai melhorar se eu esperar?
Este artigo responde às duas. A resposta curta é que “cura” é a palavra errada para o que está em jogo, e que a pergunta útil depende de você estar falando de um traço ou de um transtorno. A resposta mais longa, e a que costuma importar, é sobre o que dá para fazer enquanto isso.
Pontos-Chave
- Um traço de personalidade não é uma doença que se cura. Ele se flexibiliza com o tempo e o contexto, ou não
- No transtorno de personalidade narcisista, a literatura clínica fala em tratamento e manejo de sintomas, não em cura (Cleveland Clinic)
- As abordagens com algum apoio são psicoterapêuticas e de longo prazo; não há medicamento que trate o quadro diretamente (Manual MSD)
- O resultado depende do envolvimento da própria pessoa, e o abandono do tratamento é comum
- Para quem convive com a dinâmica, o trabalho possível é outro, e não depende de a outra pessoa mudar
Nesta página
- Traço ou transtorno: por que a pergunta muda de resposta
- O transtorno de personalidade narcisista tem cura?
- O que o tratamento pode fazer
- Por que a pessoa raramente busca tratamento
- E quem convive com a dinâmica
- Perguntas Frequentes
- Sobre o Autor
Traço ou transtorno: por que a pergunta muda de resposta
Narcisismo, no uso comum, é um traço de personalidade: uma tendência a se colocar no centro, a precisar de reconhecimento para se manter estável, a ter dificuldade sustentada com o ponto de vista alheio. Está distribuído na população, em graus variados, como explicamos no artigo sobre o que é narcisismo.
Traços não são doenças, e por isso “cura” não se aplica a eles. Um traço pode se flexibilizar: com maturidade, com terapia, com uma relação que exija outra coisa da pessoa, com um baque que a faça rever como vinha operando. Ou pode não se flexibilizar. O que não acontece é ele ser “curado”, porque não era uma infecção.
O transtorno de personalidade narcisista é outra categoria. O DSM-5-TR, manual diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria, o classifica entre os transtornos de personalidade: um padrão persistente desde o início da vida adulta, presente em contextos diferentes, com prejuízo real de funcionamento. É desse quadro que a pergunta “tem cura” costuma tratar, mesmo quando quem pergunta não usa o nome técnico.
O transtorno de personalidade narcisista tem cura?
A resposta que a literatura clínica sustenta é: não se fala em cura. Fala-se em tratamento e em manejo de sintomas (Cleveland Clinic).
A diferença não é só de vocabulário. “Cura” sugere um ponto final: fez o tratamento, acabou, a pessoa volta a ser quem seria sem o quadro. Com transtornos de personalidade, o que se busca é outra coisa: reduzir o prejuízo, tornar os sintomas mais manejáveis, melhorar a qualidade das relações e do funcionamento. O prognóstico varia conforme o tipo e a gravidade dos sintomas e conforme outras condições presentes ao mesmo tempo, como ansiedade ou depressão (Cleveland Clinic).
Vale desconfiar de qualquer texto que responda essa pergunta com um “sim” limpo ou um “não” limpo. Os dois extremos vendem certeza sobre algo que a própria literatura trata com cautela.

O que o tratamento pode fazer
O tratamento do transtorno é psicoterapêutico, e geralmente de longo prazo. As abordagens citadas com mais frequência:
- Psicoterapia psicodinâmica, que o Manual MSD descreve como possivelmente eficaz, com enfoque nos conflitos primários da pessoa (Manual MSD).
- Tratamento baseado em mentalização, que trabalha a capacidade de reconhecer os próprios estados mentais e os dos outros (Manual MSD).
- Terapia cognitivo-comportamental, terapia comportamental dialética e terapia de grupo, também citadas como opções (Cleveland Clinic).
Não existe medicamento que trate o transtorno de personalidade narcisista diretamente. Quando remédios entram, é para condições associadas, como ansiedade ou depressão, não para o quadro em si (Cleveland Clinic).
Um ponto que nenhum tratamento contorna: o resultado depende do envolvimento da própria pessoa. Terapia de personalidade não é um procedimento que se aplica em alguém; é um trabalho que a pessoa faz. Isso parece óbvio e não é, porque é exatamente aí que a maioria das perguntas sobre “cura” trava.
Por que a pessoa raramente busca tratamento
Aqui está a parte que costuma frustrar quem faz a pergunta original.
Alguns dos sintomas do próprio quadro reduzem a disposição de pedir ajuda. A pessoa pode não reconhecer que há um problema, ou pode reconhecer e sentir que admitir isso é uma ameaça. Quanto mais graves os sintomas, menor a chance de a pessoa procurar tratamento por conta própria (Cleveland Clinic).
Quando o tratamento começa, o abandono é comum: pessoas com o transtorno têm um risco maior de largar a terapia no meio (Cleveland Clinic). Muitas vezes é um evento estressante, uma separação, uma perda de status, um diagnóstico, que faz os sintomas aparecerem por inteiro e leva a pessoa ao consultório (Cleveland Clinic).
Nada disso está sob o seu controle. Você não consegue querer o tratamento pela outra pessoa, e não consegue criar o envolvimento que ele exige.
E quem convive com a dinâmica
Se você chegou aqui por causa de alguém, essa é a seção que importa.
O trabalho possível para você não depende de a outra pessoa mudar. Ele é sobre recuperar a sua leitura da realidade depois de um tempo duvidando dela; entender como a convivência foi moldando o que passou a parecer normal; e reconstruir limites que sejam sustentáveis, com ou sem a relação.
Isso não exige um diagnóstico da outra pessoa, e não exige esperar por uma mudança que pode não vir. Se a convivência está custando sono, concentração, vínculos com outras pessoas, esse custo já é motivo suficiente para procurar apoio.

Para o passo seguinte, veja como lidar com um narcisista, sobre limites e autocuidado no dia a dia, e relacionamento tóxico, sobre o que a convivência provoca e como dar os primeiros passos com segurança. Se quiser entender como esse tipo de acompanhamento funciona na prática, antes de decidir qualquer coisa, veja como funciona o processo.
Perguntas Frequentes
Um narcisista consegue mudar sozinho?
Um traço narcisista pode se flexibilizar ao longo da vida, às vezes sem terapia, geralmente diante de uma relação ou de um baque que exija outra postura. No caso do transtorno, mudança sustentada sem tratamento é rara, e nunca acontece porque alguém de fora decidiu que era hora.
Terapia de casal resolve?
A terapia de casal pode ajudar a mudar a dinâmica entre as duas pessoas e a tornar a comunicação menos destrutiva. Ela não trata o transtorno de personalidade de um dos parceiros, e não deve ser usada como substituto de tratamento individual quando esse é o caso.
Quanto tempo dura o tratamento?
Não há um prazo. O tratamento de transtornos de personalidade é de longo prazo, medido em anos mais do que em meses, e o ritmo depende do envolvimento da pessoa. Qualquer promessa de resultado rápido para esse tipo de quadro é um sinal de alerta.
Dá para obrigar alguém a se tratar?
Não de forma útil. É possível levar alguém a uma consulta, mas não é possível produzir o envolvimento que o tratamento exige. O que está no seu alcance é cuidar do efeito que a convivência tem sobre você.
Sobre o Autor
Fabio Morus é terapeuta comportamental e hipnoterapeuta em Jersey, Ilhas do Canal, com foco em ansiedade, fobias e síndrome do pânico. É formado em Hipnoterapia Neuro-Sistêmica (Instituto Brasileiro de Hipnose), TCC (Instituto Beck) e EMDR (EMDR Association UK), e tem Mestrado em Controle de Dependências. Atende online em português e inglês, e presencialmente em Jersey. Conheça a formação completa na página Sobre.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação clínica, diagnóstico ou tratamento profissional. Nenhuma informação aqui permite diagnosticar outra pessoa. Se você está em sofrimento intenso ou com pensamentos de se machucar, procure um serviço de urgência ou ligue para o CVV: 188 (gratuito, disponível 24h em todo o Brasil).



