O Transtorno Neurológico Funcional (FND) ainda é pouco compreendido — até por muitos profissionais de saúde.
A pessoa tem sintomas neurológicos reais: convulsões, fraqueza, tremores, alterações na marcha. Mas os exames de imagem não mostram uma lesão estrutural. O cérebro não está danificado — está a funcionar de forma diferente.
E isso confunde. O paciente sente os sintomas. Os exames dizem que está tudo bem. O fosso entre o que se vive e o que se vê nos resultados é um dos maiores desafios do diagnóstico.
Agora, uma abordagem nova está a ganhar força: o EMDR.
O que é o FND?
FND é uma condição neurológica comum. Representa cerca de 16% das consultas externas de neurologia. O impacto na qualidade de vida é comparável ao Parkinson ou à esclerose múltipla. Se quiser entender melhor os diferentes tipos de FND, leia o guia completo sobre o transtorno neurológico funcional.
Os sintomas dividem-se em dois grandes grupos:
- Crises funcionais (convulsões não epiléticas)
- Transtorno motor funcional (fraqueza, tremor, distúrbios da marcha)
O problema não está na estrutura do cérebro. Está na forma como o cérebro processa e envia os sinais. É um problema de software, não de hardware.
Na maioria dos casos, há um fator comum: trauma. Experiências adversas na infância, eventos de vida stressantes, doenças prolongadas. O corpo regista o que a mente tenta esquecer.
Porque é que o EMDR faz sentido para o FND
O EMDR — Eye Movement Desensitization and Reprocessing — é um tratamento baseado em evidência para o PTSD. Funciona através da estimulação bilateral (movimentos oculares ou táteis) enquanto a pessoa processa memórias perturbadoras.
A hipótese mais aceite é a da memória de trabalho: manter uma memória stressante na mente enquanto se realiza uma tarefa de atenção dupla reduz a vivacidade e a carga emocional dessa memória. Já escrevi sobre como o EMDR funciona para o transtorno conversivo, outro subtipo de FND. O princípio é semelhante.
No contexto do FND, o raciocínio é direto:
Se os sintomas são desencadeados ou mantidos por memórias perturbadoras associadas ao início da condição, processar essas memórias pode enfraquecer a representação cognitiva dos sintomas. Traduzindo: menos ameaça percebida, menos sintomas, menos sofrimento.
O que dizem os estudos
O ensaio MODIFI (BMJ Open, 2023) é o primeiro estudo randomizado controlado a testar o EMDR especificamente para FND. Está a decorrer no St George’s Hospital, em Londres, com 50 participantes.
Os investigadores estão a testar um protocolo de EMDR adaptado ao FND — com ou sem PTSD comórbido. Porque a lógica não depende apenas da presença de trauma clínico. O que interessa são as memórias perturbadoras associadas aos sintomas, ponto.
Há também séries de casos publicadas que mostram resultados positivos. Dois pacientes sem PTSD comórbido responderam bem ao EMDR. A melhoria foi observada tanto nos sintomas físicos como no funcionamento diário.
Isto não é uma cura milagrosa. É uma via terapêutica com fundamento neurológico sólido.
Para quem pode funcionar?
O EMDR para FND pode ser indicado quando:
- Existem memórias perturbadoras ligadas ao início dos sintomas
- Há eventos adversos de vida que coincidem com o agravamento
- O paciente tem capacidade para tolerar o processamento emocional
- Outras abordagens (fisioterapia, CBT) trouxeram resultados parciais
Não é para todos os casos. O estudo MODIFI exclui pacientes com psicose ativa, perturbação dissociativa de identidade, dependência de substâncias ou ideação suicida grave. A avaliação clínica é indispensável. Se os sintomas de FND são novos para si, veja também os tratamentos disponíveis para FND.
Como funciona na prática
Uma sessão típica segue esta estrutura:
- Identificar a memória-alvo ligada aos sintomas
- Medir o nível de perturbação associado (escala SUD)
- Aplicar estimulação bilateral enquanto o paciente mantém a memória presente
- Processar em ciclos até a perturbação baixar significativamente
- Instalar uma crença positiva adaptativa
O protocolo adaptado ao FND inclui também o processamento de imagens de sintomas atuais e cenários futuros temidos — não apenas memórias passadas.
O ponto essencial
O FND não está na imaginação do paciente. Está no sistema nervoso.
E se o sistema nervoso aprendeu um padrão disfuncional, ele pode aprender um padrão mais adaptativo. É aqui que o EMDR entra.
A ciência ainda está a construir a base de evidência. Mas a direção é promissora. E para muitas pessoas com FND que já tentaram várias abordagens sem resultado, esta é uma porta que vale a pena abrir.
Nota: Este artigo tem finalidade informativa. O EMDR deve ser aplicado por profissionais certificados, em contexto clínico adequado. Consulte o seu médico ou terapeuta antes de iniciar qualquer tratamento.


