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Fabio Morus
EMDRFNDtranstorno neurológico funcionaltraumaterapia

EMDR para Transtorno Neurológico Funcional: O Que a Ciência Diz

O EMDR está a ser estudado como tratamento para FND. Entenda o que mostram os ensaios clínicos, como funciona e para quem pode ser indicado.

5 min de leitura
EMDR therapy for functional neurological disorder
Fabio Morus
Fabio Morus

Hipnoterapeuta Clínico

O Transtorno Neurológico Funcional (FND) ainda é pouco compreendido — até por muitos profissionais de saúde.

A pessoa tem sintomas neurológicos reais: convulsões, fraqueza, tremores, alterações na marcha. Mas os exames de imagem não mostram uma lesão estrutural. O cérebro não está danificado — está a funcionar de forma diferente.

E isso confunde. O paciente sente os sintomas. Os exames dizem que está tudo bem. O fosso entre o que se vive e o que se vê nos resultados é um dos maiores desafios do diagnóstico.

Agora, uma abordagem nova está a ganhar força: o EMDR.

Brain functional versus structural disorder comparison

O que é o FND?

FND é uma condição neurológica comum. Representa cerca de 16% das consultas externas de neurologia. O impacto na qualidade de vida é comparável ao Parkinson ou à esclerose múltipla. Se quiser entender melhor os diferentes tipos de FND, leia o guia completo sobre o transtorno neurológico funcional.

Os sintomas dividem-se em dois grandes grupos:

  • Crises funcionais (convulsões não epiléticas)
  • Transtorno motor funcional (fraqueza, tremor, distúrbios da marcha)

O problema não está na estrutura do cérebro. Está na forma como o cérebro processa e envia os sinais. É um problema de software, não de hardware.

Na maioria dos casos, há um fator comum: trauma. Experiências adversas na infância, eventos de vida stressantes, doenças prolongadas. O corpo regista o que a mente tenta esquecer.

Person receiving EMDR therapy with eye movement tracking

Porque é que o EMDR faz sentido para o FND

O EMDR — Eye Movement Desensitization and Reprocessing — é um tratamento baseado em evidência para o PTSD. Funciona através da estimulação bilateral (movimentos oculares ou táteis) enquanto a pessoa processa memórias perturbadoras.

A hipótese mais aceite é a da memória de trabalho: manter uma memória stressante na mente enquanto se realiza uma tarefa de atenção dupla reduz a vivacidade e a carga emocional dessa memória. Já escrevi sobre como o EMDR funciona para o transtorno conversivo, outro subtipo de FND. O princípio é semelhante.

No contexto do FND, o raciocínio é direto:

Se os sintomas são desencadeados ou mantidos por memórias perturbadoras associadas ao início da condição, processar essas memórias pode enfraquecer a representação cognitiva dos sintomas. Traduzindo: menos ameaça percebida, menos sintomas, menos sofrimento.

Neural network forming new brain connections and pathways

O que dizem os estudos

O ensaio MODIFI (BMJ Open, 2023) é o primeiro estudo randomizado controlado a testar o EMDR especificamente para FND. Está a decorrer no St George’s Hospital, em Londres, com 50 participantes.

Os investigadores estão a testar um protocolo de EMDR adaptado ao FND — com ou sem PTSD comórbido. Porque a lógica não depende apenas da presença de trauma clínico. O que interessa são as memórias perturbadoras associadas aos sintomas, ponto.

Há também séries de casos publicadas que mostram resultados positivos. Dois pacientes sem PTSD comórbido responderam bem ao EMDR. A melhoria foi observada tanto nos sintomas físicos como no funcionamento diário.

Isto não é uma cura milagrosa. É uma via terapêutica com fundamento neurológico sólido.

Human body showing functional neurological disorder symptoms

Para quem pode funcionar?

O EMDR para FND pode ser indicado quando:

  • Existem memórias perturbadoras ligadas ao início dos sintomas
  • Há eventos adversos de vida que coincidem com o agravamento
  • O paciente tem capacidade para tolerar o processamento emocional
  • Outras abordagens (fisioterapia, CBT) trouxeram resultados parciais

Não é para todos os casos. O estudo MODIFI exclui pacientes com psicose ativa, perturbação dissociativa de identidade, dependência de substâncias ou ideação suicida grave. A avaliação clínica é indispensável. Se os sintomas de FND são novos para si, veja também os tratamentos disponíveis para FND.

Open door symbolizing hope and recovery from FND

Como funciona na prática

Uma sessão típica segue esta estrutura:

  1. Identificar a memória-alvo ligada aos sintomas
  2. Medir o nível de perturbação associado (escala SUD)
  3. Aplicar estimulação bilateral enquanto o paciente mantém a memória presente
  4. Processar em ciclos até a perturbação baixar significativamente
  5. Instalar uma crença positiva adaptativa

O protocolo adaptado ao FND inclui também o processamento de imagens de sintomas atuais e cenários futuros temidos — não apenas memórias passadas.

O ponto essencial

O FND não está na imaginação do paciente. Está no sistema nervoso.

E se o sistema nervoso aprendeu um padrão disfuncional, ele pode aprender um padrão mais adaptativo. É aqui que o EMDR entra.

A ciência ainda está a construir a base de evidência. Mas a direção é promissora. E para muitas pessoas com FND que já tentaram várias abordagens sem resultado, esta é uma porta que vale a pena abrir.


Nota: Este artigo tem finalidade informativa. O EMDR deve ser aplicado por profissionais certificados, em contexto clínico adequado. Consulte o seu médico ou terapeuta antes de iniciar qualquer tratamento.

Este conteúdo é de carácter informativo e não substitui diagnóstico clínico profissional ou tratamento médico. Consulte um profissional de saúde qualificado antes de tomar qualquer decisão com base nesta informação.
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