Você já respondeu a um questionário curto numa consulta médica, com perguntas sobre nervosismo, preocupação ou desânimo nas últimas duas semanas? É bem provável que fosse o GAD-7 ou o PHQ-9. São os dois instrumentos de rastreio mais usados no mundo para ansiedade e depressão, validados desde 2001 e 2006 respectivamente, e continuam a estrutura padrão da atenção primária e da telemedicina em 2026.
Neste artigo você encontra as 16 perguntas dos dois questionários, como responder, como somar a pontuação e, principalmente, o que fazer com o resultado. Um ponto merece atenção antes de começar: um dos itens do PHQ-9 pergunta sobre pensamentos de morte ou autolesão. Se você responder a essa pergunta com qualquer opção além de “Nada”, há uma orientação de segurança específica mais abaixo. Vale a pena ler com calma.
Pontos-Chave
- O GAD-7 (7 itens, ansiedade) e o PHQ-9 (9 itens, depressão) são instrumentos validados, de uso livre para fins clínicos e educacionais
- Na validação original, o PHQ-9 teve sensibilidade de 88% e especificidade de 88% para depressão maior, no ponto de corte ≥10 (Kroenke et al., 2001)
- O GAD-7 teve sensibilidade de 89% e especificidade de 82% para transtorno de ansiedade generalizada, também no corte ≥10 (Spitzer et al., 2006)
- Nenhum dos dois questionários substitui uma avaliação clínica: são ferramentas de rastreio, não de diagnóstico
- Se a pergunta sobre pensamentos de autolesão do PHQ-9 receber qualquer resposta acima de “Nada”, procure ajuda imediata: CVV 188 (gratuito, 24h)
O Que São o GAD-7 e o PHQ-9?
O GAD-7 (Generalized Anxiety Disorder 7-item scale) e o PHQ-9 (Patient Health Questionnaire-9) são questionários curtos de autoavaliação, criados para identificar sinais de ansiedade generalizada e de depressão na atenção primária. Nenhum dos dois exige treino clínico para ser respondido. A pontuação é simples, o que os tornou padrão em consultórios, hospitais e plataformas de telessaúde em todo o mundo.
O PHQ-9 foi validado por Kroenke, Spitzer e Williams em 2001, publicado no Journal of General Internal Medicine, com dados de pacientes de oito clínicas de atenção primária e sete clínicas obstétricas (Kroenke et al., 2001). O GAD-7 veio cinco anos depois, criado por Spitzer, Kroenke, Williams e Löwe, com mais de 2.700 pacientes de atenção primária, publicado na Archives of Internal Medicine em 2006 (Spitzer et al., 2006). Ambos pertencem à família de instrumentos desenvolvida sob o projeto PRIME-MD e têm distribuição livre para uso clínico, educacional e de pesquisa, sem necessidade de licença.
Versões em português também foram validadas em estudos brasileiros independentes, com estrutura fatorial e consistência interna equivalentes às versões originais em inglês, o que sustenta o uso do questionário traduzido neste artigo.
Como Responder ao Questionário
A instrução é a mesma para as duas escalas: pense nas últimas duas semanas e escolha, para cada pergunta, a opção que melhor descreve com que frequência você foi incomodado(a) por aquele problema.
| Resposta | Pontos |
|---|---|
| Nada | 0 |
| Vários dias | 1 |
| Mais de metade dos dias | 2 |
| Quase todos os dias | 3 |
Responda com sinceridade, sem tentar antecipar o resultado “certo”. O valor do questionário está exatamente em capturar o que você sentiu de verdade, não o que você acha que deveria sentir.
GAD-7: As 7 Perguntas de Rastreio de Ansiedade
Nas últimas duas semanas, com que frequência você foi incomodado(a) pelos seguintes problemas?
- Sentir-se nervoso(a), ansioso(a) ou tenso(a)
- Não conseguir parar ou controlar a preocupação
- Preocupar-se demasiado com coisas diferentes
- Dificuldade em relaxar
- Estar tão inquieto(a) que é difícil ficar parado(a)
- Ficar facilmente irritado(a) ou com o feitio ao contrário
- Sentir medo, como se algo terrível pudesse acontecer
Some os pontos das 7 respostas para chegar à pontuação total do GAD-7 (0 a 21). A interpretação está na seção de pontuação, mais abaixo.
Se a inquietação física costuma vir acompanhada de aperto no peito, veja também Aperto no Peito por Ansiedade: O Que Fazer para entender essa manifestação específica.
PHQ-9: As 9 Perguntas de Rastreio de Depressão
Assim como no GAD-7, pense nas últimas duas semanas e responda com que frequência cada um dos problemas abaixo o(a) incomodou.
- Pouco interesse ou prazer em fazer as coisas
- Sentir-se em baixo, deprimido(a) ou sem esperança
- Dificuldade em adormecer, em manter o sono, ou dormir demasiado
- Sentir-se cansado(a) ou com pouca energia
- Falta de apetite ou comer em excesso
- Sentir-se mal consigo mesmo(a), ou achar que é um fracasso, ou que decepcionou a si mesmo(a) ou a sua família
- Dificuldade em concentrar-se, por exemplo, para ler ou ver televisão
- Mover-se ou falar tão lentamente que outras pessoas notariam, ou o oposto: estar tão agitado(a) ou inquieto(a) que se mexe muito mais que o normal
- Pensamentos de que estaria melhor morto(a) ou de se magoar de alguma forma
Some os pontos das 9 respostas para chegar à pontuação total do PHQ-9 (0 a 27).
Um detalhe pouco discutido: o item 9 do PHQ-9 não pontua ideação suicida clínica no mesmo sentido de uma entrevista estruturada. Ele funciona como um alerta de triagem: qualquer resposta acima de “Nada” justifica avaliação adicional, independentemente da pontuação total das outras 8 perguntas. Uma pessoa pode somar 6 pontos no total e ainda assim precisar de atenção imediata, se essa pontuação vier concentrada no item 9. A soma total nunca substitui a leitura isolada dessa pergunta.
Atenção: Pergunta 9 do PHQ-9 e Risco de Autolesão
Se você respondeu a pergunta 9 (“pensamentos de que estaria melhor morto(a) ou de se magoar de alguma forma”) com qualquer opção diferente de “Nada”, isso pede atenção imediata. Não é motivo para vergonha, e não significa que algo está “errado” com você.
- Fale agora com alguém de confiança sobre o que está sentindo
- Ligue para o CVV: 188, ou converse por chat em cvv.org.br, gratuito e disponível 24 horas em todo o Brasil, ou procure o serviço de urgência mais próximo
- Se o risco parecer iminente, não fique sozinho(a): peça a alguém para ficar com você ou vá diretamente a um pronto-socorro
- Depois da crise imediata, procure um psicólogo ou psiquiatra para avaliação. Esse item do questionário é um sinal para agir, não apenas para observar
Este questionário não avalia risco com a profundidade de uma entrevista clínica. Ele serve para apontar que uma conversa profissional é necessária agora, não depois.
Como Pontuar e Interpretar o Resultado
Cada escala é somada separadamente. Não misture os pontos do GAD-7 com os do PHQ-9. As faixas abaixo vêm dos estudos de validação originais e são as mesmas usadas em ambiente clínico.
GAD-7 (0 a 21 pontos)
| Pontuação | Nível de ansiedade |
|---|---|
| 0-4 | Mínima |
| 5-9 | Leve |
| 10-14 | Moderada |
| 15-21 | Grave |
O ponto de corte 10 foi o que melhor equilibrou sensibilidade (89%) e especificidade (82%) para transtorno de ansiedade generalizada na amostra original de mais de 2.700 pacientes (Spitzer et al., 2006).
PHQ-9 (0 a 27 pontos)
| Pontuação | Nível de depressão |
|---|---|
| 0-4 | Mínima |
| 5-9 | Leve |
| 10-14 | Moderada |
| 15-19 | Moderadamente grave |
| 20-27 | Grave |
No estudo de validação, pessoas com pontuação ≥10 tinham entre 7 e 13,6 vezes mais chance de receber diagnóstico de depressão numa entrevista clínica estruturada, com sensibilidade de 88% e especificidade de 88% nesse corte (Kroenke et al., 2001).
O Resultado Não É um Diagnóstico: o Que Fazer Agora
Uma pontuação alta no GAD-7 ou no PHQ-9 diz o que você está sentindo, não o porquê. Duas pessoas com pontuação 15 podem ter causas completamente diferentes: uma vive um episódio de transtorno de ansiedade generalizada, a outra atravessa um luto recente que se manifesta com sintomas parecidos. O questionário sinaliza intensidade; a entrevista clínica é que distingue a causa. É por isso que pontuação alta é sempre convite à avaliação, nunca o próprio diagnóstico.
Independentemente da faixa em que você caiu, alguns passos práticos ajudam:
- Pontuação mínima ou leve: guarde o resultado como referência e repita o questionário se os sintomas mudarem. Estratégias de autorregulação, como as descritas em 5 Estratégias para Lidar com a Ansiedade, podem ser suficientes.
- Pontuação moderada: considere conversar com um psicólogo. Sintomas moderados que persistem por semanas raramente melhoram sozinhos.
- Pontuação grave em qualquer das escalas: procure avaliação profissional o quanto antes. Um psicólogo clínico faz a avaliação inicial; um psiquiatra é indicado se houver necessidade de considerar medicação.
Quando o componente depressivo vem acompanhado de uma sensação de perda de sentido, vale também a leitura sobre depressão existencial para entender essa camada específica. Se o predomínio for de crises agudas de pânico, Como Parar um Ataque de Pânico traz técnicas para o momento da crise.
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Perguntas Frequentes
O GAD-7 e o PHQ-9 dão um diagnóstico de ansiedade ou depressão?
Não. São ferramentas de rastreio, criadas para sinalizar a probabilidade de um transtorno e sua gravidade, não para diagnosticar. Um diagnóstico exige entrevista clínica com um psicólogo ou psiquiatra. Mesmo assim, pontuações ≥10 estão fortemente associadas a diagnóstico posterior: no PHQ-9, entre 7 e 13,6 vezes mais chance de depressão confirmada em entrevista (Kroenke et al., 2001).
Posso usar o GAD-7 e o PHQ-9 para acompanhar minha evolução ao longo do tempo?
Sim. É um dos usos mais comuns na prática clínica: repetir o questionário a cada 2 a 4 semanas durante o tratamento para ver se a pontuação está caindo. Guarde os resultados anteriores e leve-os à consulta. A variação ao longo do tempo costuma dizer mais do que uma pontuação isolada.
O que significa uma pontuação alta só no GAD-7, mas baixa no PHQ-9 (ou vice-versa)?
Significa que os sintomas predominantes são de um tipo específico. Ansiedade e depressão são condições distintas, mesmo com sintomas que se sobrepõem, como insônia e irritabilidade. Uma pontuação alta isolada no GAD-7 sugere foco em ansiedade; alta isolada no PHQ-9 sugere foco em humor. As duas pontuações altas ao mesmo tempo também são comuns: ansiedade e depressão coexistem com frequência.
Com que frequência devo repetir o questionário?
Não há uma regra fixa fora de acompanhamento clínico, mas a cada 2 a 4 semanas é um intervalo comum durante tratamento ativo. Repetir todos os dias não traz informação nova e pode aumentar o foco ansioso nos próprios sintomas. Se você não está em tratamento, uma vez por mês já é suficiente para notar tendências.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação clínica, diagnóstico ou tratamento profissional. O GAD-7 e o PHQ-9 são instrumentos de rastreio, não de diagnóstico. Se você está em crise aguda ou com pensamentos de se machucar, procure um serviço de urgência ou ligue para o CVV: 188 (gratuito, disponível 24h em todo o Brasil).
Fontes
- Kroenke, K., Spitzer, R.L., Williams, J.B. (2001), “The PHQ-9: validity of a brief depression severity measure”, Journal of General Internal Medicine. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1046/j.1525-1497.2001.016009606.x
- Spitzer, R.L., Kroenke, K., Williams, J.B., Löwe, B. (2006), “A brief measure for assessing generalized anxiety disorder: the GAD-7”, Archives of Internal Medicine. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16717171/
- CVV — Centro de Valorização da Vida, apoio emocional gratuito 24h. Disponível em: https://www.cvv.org.br/



